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Cânhamo · A planta

Uma planta, quatro matérias-primas

Caule, semente, flor e raiz saem da mesma lavoura e alimentam cadeias diferentes. Entender essa divisão é entender o setor inteiro.

Quem olha uma lavoura de cânhamo vê uma cultura só. Quem compra vê quatro. O caule dá duas matérias-primas diferentes entre si, a semente dá uma terceira, a flor dá uma quarta — e cada uma tem indústria, preço e cadeia de processamento próprios.

O caule, por dentro

O caule do cânhamo é um cilindro em camadas. Por fora, uma casca fina e resinosa. Sob ela, feixes de fibras longas que correm da base ao topo da planta, presas umas às outras pela lignina e coladas ao miolo pela pectina. No centro, um núcleo lenhoso e poroso.

Essas duas partes se separam no beneficiamento e seguem caminhos opostos:

ParteNome no setorCaracterísticasDestino
Casca e feixes externosFibra líber, fibra longa (bast fiber)Fibras longas e resistentes, boas para torcer e fiarFio, tecido, corda, não tecido, compósito automotivo, isolante
Miolo lenhosoHurd, shiv, estopa, serragemLeve, poroso, muito absorventeHempcrete, blocos, painéis, papel, cama animal, mulch

A proporção entre as duas importa no preço: a fibra longa vale mais por tonelada, mas o hurd é maior parte do peso do caule e é o que abastece a construção civil, hoje a maior categoria de empresas do nosso catálogo.

A semente

Rica em proteína e em gorduras insaturadas, a semente não contém THC nem qualquer outro canabinoide. Pode ser moída para extrair óleo — sobrando o bolo de semente, usado em alimentos, cosméticos e biodiesel — ou descascada, virando o que o mercado chama de corações de semente. Parte da safra volta para o campo como semente de plantio. A página de sementes e alimentos trata dessa cadeia em detalhe.

Flor, folha e raiz

Nas flores do topo das plantas fêmeas se concentra a resina rica em fitocanabinoides. Dela saem óleos e extratos secos para uso nutracêutico, farmacêutico e em chás. Folhas e raízes seguem processo parecido, com rendimento menor. É a parte da planta que puxa as maiores margens e a maior carga regulatória — assunto da página de canabinoides.

Variedades e densidade: a lavoura muda conforme o produto

Não existe uma planta de cânhamo genérica. Existem variedades selecionadas para cada finalidade, e o manejo acompanha a escolha:

  • Para fibra, prioriza-se o crescimento vertical. Semeia-se com muitas plantas por metro quadrado, o que estimula o caule a crescer alto e fino, com fibras mais longas.
  • Para semente, escolhem-se variedades de grão maior e densidade menor, para que cada planta produza mais.
  • Para canabinoides, usam-se plantas relativamente baixas, com máximo rendimento de resina, em densidade baixa — o espaçamento facilita a circulação de ar e previne fungos.
  • Para uso misto, que aproveita mais de uma matéria-prima da mesma safra, a densidade fica no meio-termo. É o arranjo que dá ao produtor mais de uma receita pelo mesmo custo de insumo e pela mesma água.

Essa é uma das razões pelas quais a entrada de um país novo na cultura leva anos: as variedades precisam ser adaptadas ao solo, ao clima e ao fotoperíodo locais antes de render o que rendem na origem.

Por que o limite de THC existe

O THC é o composto responsável pelo efeito entorpecente da Cannabis. As variedades industriais foram selecionadas para praticamente não produzi-lo, e os governos fixam um teto para garantir que a lavoura não seja desviada. O teto mais comum no comércio internacional é 0,3%; alguns países adotam 1%. A tabela completa por país está na página de regulação.

Vale a consequência prática: flor de cânhamo não produz droga, e semente de cânhamo não contém canabinoide nenhum. A confusão entre as duas plantas é de nome, não de química.

Fontes desta página

  • Cânhamo: a Commodity do Futuro — recomendações para a regulamentação do cânhamo no Brasil — Instituto Ficus, 2024. Pesquisa de Juliana Tranjan e Rodrigo Tafner, coordenação de Marcel Grecco, edição de Tarso Araújo. www.institutoficus.org
  • Growing Hemp for the Future: A Global Fiber Guide — Textile Exchange, julho de 2023. Autoria de Sandra Marquardt, com dados de FAOSTAT, USDA e TURKSTAT. textileexchange.org

O texto desta página foi escrito pela equipe do I Love Hemp a partir desses estudos. Os números e as afirmações factuais são deles; o recorte e a redação são nossos. Veja a lista completa em fontes e créditos.