A fibra de cânhamo é a mais antiga que a humanidade usou para fazer corda e tecido. Saiu de cena no século 20, entre o algodão, o poliéster e a proibição, e voltou por um motivo bem contemporâneo: as indústrias que mais emitem carbono — moda, construção e plástico — estão procurando matéria-prima renovável.
Duas fibras, dois mercados
O caule entrega fibra longa e hurd, e a distância entre os dois produtos é grande. A fibra longa, extraída da casca, é a que se torce e se fia: vira fio, tecido, corda, manta, reforço de compósito. O hurd, do miolo lenhoso, é leve e absorvente: vira bloco de construção, painel, papel, cama para animais.
Uma safra de fibra produz as duas coisas ao mesmo tempo. Na prática, isso significa que uma planta de decorticação sustenta dois clientes diferentes — o têxtil e o da construção — e que a viabilidade econômica de um beneficiador depende de ter escoamento para ambos.
Do campo ao tecido: as etapas
Entre a colheita e o fio há uma sequência longa, e é nela que está o gargalo da cadeia brasileira. Para vestuário e cama, mesa e banho, o percurso completo é este:
- Maceração (retting): o caule fica exposto no campo, na água ou em tanque controlado para que microrganismos degradem a pectina que cola a fibra ao miolo. É considerada a primeira etapa de processamento pelas certificações têxteis.
- Decorticação: separação mecânica da fibra e do hurd.
- Scutching: limpeza e alinhamento da fibra longa, removendo resíduos lenhosos.
- Degomagem: remoção química ou enzimática das gomas remanescentes.
- Cotonização: amaciamento mecânico que encurta e afina a fibra para que ela rode em maquinário de algodão — é o atalho que permite usar o parque têxtil existente.
- Hackling, cardagem, estiragem e maçaroca: preparação da mecha.
- Fiação, tecelagem ou malharia, acabamento e, por fim, corte e costura.
Para não tecidos, o caminho é bem mais curto: maceração, decorticação, limpeza, cardagem e formação da manta. É por isso que isolante térmico e manta automotiva costumam ser a primeira aplicação industrial viável num país que está começando — exigem menos etapas e menos capital.
O jeans de cânhamo e a fibra cotonizada
A Levi's resumiu o argumento numa campanha de 2021: comparado ao algodão, o cânhamo cresce mais rápido, usa menos água e deixa o solo mais limpo. A coleção usava cânhamo cotonizado, misturado ao algodão para dar um tecido de toque macio. A mistura é o que torna a fibra viável em escala hoje: cânhamo puro tem caimento rígido e exige maquinário específico, enquanto a mistura roda na indústria que já existe.
Construção: hempcrete e isolamento
Na construção civil, o hurd é misturado com cal e água para formar o hempcrete — um material leve, isolante térmico e acústico, e permeável ao vapor. Não é estrutural: preenche paredes em torno de uma estrutura de madeira ou aço. Existem também blocos pré-moldados, painéis de fachada e lãs de isolamento feitas da fibra.
É a maior categoria do nosso catálogo, com 45 empresas — de fabricantes de bloco na Bélgica a construtoras que aplicam hempcrete projetado nos Estados Unidos.
Bioplásticos e compósitos
A fibra curta também entra como carga e reforço em polímeros. A indústria automotiva usa compósitos de fibra natural para reduzir peso — o Lotus Eco Elise, feito com painéis de fibra de cânhamo, ficou 32 kg mais leve que o modelo convencional. O mesmo princípio aparece em pranchas de surf, filamento de impressão 3D, embalagens e peças moldadas por injeção.
Quem compra
União Europeia e China são os maiores importadores de fibra de cânhamo do mundo e dependem de fornecimento externo para atender a demanda interna. As compras do bloco europeu cresceram 32% entre 2014 e 2023, chegando a US$ 16 milhões. Na China, as importações saíram de quase zero antes da pandemia para mais de US$ 5 milhões.
Em valor absoluto ainda é um mercado de nicho. O que chama atenção é a taxa: são dois compradores grandes, com indústria instalada, comprando cada vez mais fora. O Instituto Ficus trata isso como uma oportunidade estratégica aberta para o Brasil.
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