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Cânhamo · Canabinoides

Canabinoides: a parte cara da planta

É a aplicação com maior valor por quilo e a única que o brasileiro já consome em escala — toda ela importada.

Nas flores do topo das plantas fêmeas, o cânhamo produz uma resina rica em fitocanabinoides — compostos orgânicos que interagem com receptores celulares presentes em vários órgãos de humanos e outros mamíferos. São mais de cem canabinoides conhecidos. Dois concentram a atenção: o canabidiol (CBD) e o tetra-hidrocanabinol (THC).

CBD e THC: a diferença que define a planta

O THC é o responsável pelo efeito entorpecente da maconha, que tem entre 5% e 30% do composto. O cânhamo industrial é definido justamente pela ausência prática dele — daí o teto de 0,3% adotado pela maioria dos mercados. O CBD não é psicoativo: atua no sistema endocanabinoide, conjunto de neurotransmissores e receptores que regula funções como humor, sono, dor e inflamação. Seu principal efeito colateral relatado é sonolência.

O THC também tem aplicação médica, principalmente em dor crônica, náusea e perda de apetite. A diferença regulatória não é sobre utilidade, e sim sobre o potencial de desvio da lavoura.

Usos médicos com literatura

A pesquisa clínica avançou bastante na última década. Os usos mais documentados do CBD são:

  • Epilepsias refratárias. O uso mais estudado, com destaque para as síndromes de Dravet e Lennox-Gastaut. Medicamentos à base de CBD, como o Epidiolex, têm aprovação regulatória em vários países para esses casos.
  • Dor e inflamação. Alívio de dores crônicas associadas a artrite, esclerose múltipla e fibromialgia, atribuído às propriedades anti-inflamatórias.
  • Ansiedade. Estudos indicam redução de sintomas em transtorno de ansiedade generalizada, transtorno de pânico e estresse pós-traumático.
  • Neuroproteção. Há evidências de efeito protetor do sistema nervoso em doenças neurodegenerativas como Parkinson, Alzheimer e esclerose lateral amiotrófica.
  • Sono. Melhora da qualidade do sono, especialmente em quadros de insônia ligados à ansiedade.

Este texto é informativo e não substitui orientação médica. Uso de canabinoides exige prescrição e acompanhamento profissional.

O paradoxo brasileiro

O Brasil já é um mercado relevante de canabinoides — importado do começo ao fim. Mais de 200 mil brasileiros obtiveram autorização da Anvisa para importar produtos de cannabis para uso médico. As vendas de CBD em farmácias e hospitais cresceram 124% em unidades entre 2023 e 2024, segundo a IQVIA. Em 2019 a Anvisa criou uma categoria sanitária específica para esses produtos.

Todos eles vêm de fora, porque o cultivo da planta segue proibido no país. A cadeia nacional existe na distribuição, na prescrição e na logística de importação — não na produção.

Em 2024, uma decisão unânime da primeira turma do Superior Tribunal de Justiça determinou que a Anvisa regulamentasse o cultivo de cânhamo para fins medicinais no prazo de seis meses. A decisão nasceu de uma demanda judicial de uma empresa, mas tem efeito geral. Ela não alcança, porém, a produção de fibras e sementes.

Onde entra na cadeia

Canabinoides são a aplicação de maior valor por quilo do cânhamo e a que mais carrega exigência regulatória: rastreabilidade de lote, laboratório credenciado para medir THC, boas práticas de fabricação. É também a que menos se confunde com as outras — uma lavoura para extração é plantada em densidade baixa, com variedade própria, e não serve para fibra.

No nosso catálogo, a categoria de Saúde & Extratos aparece hoje sem empresas: o levantamento que originou a base excluiu de propósito negócios dedicados exclusivamente a CBD e cannabis medicinal, mantendo apenas quem também opera fibra ou grão. O critério está explicado em sobre o projeto.

Entre as recomendações do Instituto Ficus para a regulamentação brasileira está restringir a produção de outros canabinoides psicoativos além do THC a partir do cânhamo industrial, seja direto da planta, seja por transformação química pós-colheita — um ponto que a regulação de vários países deixou em aberto.

Fontes desta página

  • Cânhamo: a Commodity do Futuro — recomendações para a regulamentação do cânhamo no Brasil — Instituto Ficus, 2024. Pesquisa de Juliana Tranjan e Rodrigo Tafner, coordenação de Marcel Grecco, edição de Tarso Araújo. www.institutoficus.org

O texto desta página foi escrito pela equipe do I Love Hemp a partir desses estudos. Os números e as afirmações factuais são deles; o recorte e a redação são nossos. Veja a lista completa em fontes e créditos.