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Cânhamo · Alimentos

Sementes: proteína de carne, gordura de peixe

Sem THC e sem canabinoide nenhum, a semente é a parte menos polêmica da planta — e a que o brasileiro ainda não pode comprar.

A semente de cânhamo é alimento humano há pelo menos três mil anos na China — crua, cozida, torrada ou prensada em óleo. Nos últimos dez anos voltou a ser legal como comida no Canadá, nos Estados Unidos e na Europa. No Brasil, importar semente de cânhamo para alimentação continua proibido, embora ela não contenha THC nem qualquer outro canabinoide.

Proteína de carne, em grão

O que põe a semente na categoria de superalimento é a combinação de teor proteico alto com gordura de boa qualidade. Em proteína, ela empata com a carne vermelha e supera com folga as fontes vegetais mais populares:

AlimentoProteína
Peito de frango27%
Carne vermelha25%
Semente de cânhamo25%
Feijão21%
Ovo13%
Semente de chia13%
Lentilha9%
Ervilha5%
Leite3,5%

Percentual de proteína por peso. Fonte: Instituto Ficus, 2024.

Na gordura, a semente tem cerca de 30% do que se costuma chamar de gordura boa, rica em ômega 6 e ômega 3 numa proporção considerada ideal para a saúde cardiovascular. Três colheres de sopa por semana bastam para suprir a necessidade semanal desses ácidos graxos.

Cinco formatos, do grão ao isolado

O grau de beneficiamento define o produto e o teor de proteína final:

ProdutoProteínaUso típico
Semente sem casca (corações)20 a 25%Saladas, barras de cereal, pães e bolos
Farinha de cânhamo30 a 50%Panificação em geral
Concentrado proteico65%Carnes vegetais, ingrediente proteico
Isolado proteico90%Suplementos, shakes
Óleo de sementeAlimentação, cosméticos, biodiesel

Da prensagem sobra o bolo de semente, que vira ingrediente rico em fibra alimentar, ração ou insumo cosmético. A cadeia da semente é, das três do cânhamo, a que menos desperdiça.

O mercado

A demanda cresceu rápido a partir dos anos 2010, puxada pela consciência sobre alimentação saudável e pela procura por produtos veganos. Em 2022, as exportações globais de semente de cânhamo somaram US$ 120 milhões. Canadá, França e Paraguai estão entre os maiores produtores e exportadores, segundo dados compilados pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento.

O Canadá é o caso de referência: liberou o cultivo em 1998 e construiu em torno da semente uma indústria de alimentos com marcas de alcance global. No nosso catálogo, a categoria Alimentos & Bebidas reúne 12 empresas, de processadoras de grão a fabricantes de bebida vegetal e sorvete.

Por que o brasileiro não encontra

Semente de cânhamo não tem THC. Ainda assim, sua importação para fins alimentícios segue proibida no Brasil, porque a proibição brasileira recai sobre a espécie Cannabis sativa como um todo, sem distinguir variedade ou parte da planta. O detalhe legal está na página de regulação.

O efeito prático é duplo: o consumidor não compra, e a indústria de alimentos não desenvolve produto para um ingrediente que não pode comprar. Entre as recomendações do Instituto Ficus está justamente viabilizar, em curto prazo e em caráter temporário, a importação comercial de matéria-prima e produtos acabados — como forma de destravar a indústria nacional antes mesmo de existir lavoura no país.

Fontes desta página

  • Cânhamo: a Commodity do Futuro — recomendações para a regulamentação do cânhamo no Brasil — Instituto Ficus, 2024. Pesquisa de Juliana Tranjan e Rodrigo Tafner, coordenação de Marcel Grecco, edição de Tarso Araújo. www.institutoficus.org

O texto desta página foi escrito pela equipe do I Love Hemp a partir desses estudos. Os números e as afirmações factuais são deles; o recorte e a redação são nossos. Veja a lista completa em fontes e créditos.