Em 2024 o Instituto Ficus publicou um estudo de cenários sobre o cânhamo industrial no Brasil, com horizonte em 2045. A metodologia não é previsão: em vez de estimar um futuro provável a partir de tendências, desenha vários futuros plausíveis e pergunta o que levaria a cada um. O resultado é uma ferramenta de decisão — e, para quem está montando negócio no setor, um mapa de risco.
Duas premissas de partida
Todo o exercício assume duas coisas. A primeira é que existirá algum nível de regulamentação do cânhamo industrial no Brasil — sem isso não há setor a projetar, e a decisão do STJ em 2024 já obriga o caminho a começar. A segunda é que o setor segue crescendo no mundo, o que os dados de mercado sustentam com folga.
O horizonte de 20 anos não é arbitrário. Adaptar variedades ao solo e ao clima brasileiros, com ensaio de campo, análise de solo e desenvolvimento de manejo, consome pelo menos uma década de trabalho de instituições como a Embrapa e as universidades. Estruturar colheita, armazenamento, processamento e mercado leva de 10 a 15 anos. Somados, dão o prazo.
As duas incertezas-chave
Dos 19 fatores críticos levantados, dois se destacaram por combinar alto impacto e alta incerteza. Eles formam os eixos dos cenários:
Afeta legislação, tributação e incentivo a pesquisa. Com apoio forte, vêm ambiente regulatório favorável, crédito e subsídio, investimento em P&D e produção mais sustentável, com maior valor agregado. Com apoio fraco, vêm barreira burocrática, ausência de crédito específico, dependência de esforço privado e menos exigência socioambiental — produção mais barata e de menor impacto positivo.
Mede a receptividade do mercado brasileiro. Com demanda alta, a cadeia se integra no país e há espaço para produto de maior valor agregado. Com demanda baixa, o produtor vira exportador de matéria-prima bruta, a cadeia não se consolida e sobra pouco incentivo para inovar. Os dois freios apontados são o preço mais alto dos produtos sustentáveis e o estigma da planta na sociedade brasileira.
Quatro futuros para 2045
Made in Brazil
O Brasil é um dos principais exportadores mundiais, com regulamentação moderna e práticas ESG que atendem às exigências de China e Europa. Um programa de melhoramento genético da Embrapa iniciado em 2025 entregou variedades adaptadas a diferentes regiões, com alta produtividade e até três colheitas anuais em algumas áreas. O cânhamo chega a quase 2% da receita do agronegócio, superando pescado e frutas em valor exportado.
Só que a demanda interna nunca decolou. Campanhas associando a planta à maconha e notícias falsas sobre THC em alimentos e tecidos criaram um estigma persistente. O país exporta matéria-prima barata, importa produto acabado caro e não desenvolve indústria local. O estudo chama isso de desenvolvimento paradoxal: liderança na produção sustentável sem desenvolvimento econômico interno correspondente.
Inovação sustentável
O cenário desejado. O agronegócio usou seu know-how, infraestrutura e capacidade de investimento para tornar o Brasil um dos maiores exportadores em poucos anos, e a aceitação do consumidor puxou empresas nacionais e estrangeiras a desenvolver produto para o mercado interno.
O marco é a autossuficiência em CBD medicinal: de importador, o país passa a produzir flor seca e extrato para atender todo o mercado interno e ainda exportar para farmacêuticas europeias. O cânhamo entra em rotação com soja e milho, gerando receita de fibra e semente, aumentando a produtividade das safras seguintes e vendendo crédito no mercado de carbono brasileiro. Linhas de crédito do BNDES e desconto de IPI para indústrias que comprem ao menos 30% da produção de cooperativas e pequenos produtores distribuem o ganho. O desafio que resta é competir em produto de alto valor agregado com países que começaram décadas antes.
Celeiro internacional
Sem política pública e com regulamentação mínima, a barreira de entrada favorece quem já tem capital e tradição no mercado global. Grupos estrangeiros aproveitam a abertura brasileira para trazer parte de suas linhas de produção: compram terra em regiões de clima favorável, produzem para exportar matéria-prima e operam verticalizados, usando o Brasil como plataforma logística para a América do Norte. O setor nacional fica dominado por operadores de fora, e o mercado interno segue irrelevante.
Crescimento fragmentado
A demanda existe e puxa o mercado, mas sem estrutura regulatória e sem apoio o setor cresce desorganizado. Grandes operadores do agronegócio se consolidam; pequenos e médios produtores, sem acesso a crédito específico, maquinário e conhecimento técnico, ficam presos a vender produção com beneficiamento mínimo e margem pequena. Organizações ambientais e de agricultores familiares passam a exigir regras claras e incentivo fiscal para democratizar o acesso, e as cooperativas viram a saída possível para compartilhar custo e agregar valor.
Os 19 fatores críticos
Os cenários saem de um mapeamento maior, organizado em cinco macrotemas. Vale como checklist para quem está avaliando entrar no setor:
| Macrotema | Fatores |
|---|---|
| Ambiental | Demanda por produtos sustentáveis · Disponibilidade agrícola · Impacto ambiental · Riscos agrícolas |
| Econômico | Desenvolvimento do mercado externo · Desenvolvimento da demanda interna · Investimento em cadeia produtiva |
| Político e legal | Apoio governamental · Insegurança jurídica · Padronização comercial e fiscal · Protecionismo estrangeiro |
| Social | Geração de emprego · Impacto para o pequeno produtor · Oportunidades de reparação social |
| Tecnológico | Investimento em inovação · Maturidade do agronegócio · Maquinário · Melhoramento genético · Rastreabilidade na cadeia produtiva |
Dois números ajudam a dimensionar a oportunidade agrícola: o Brasil tem cerca de 351 milhões de hectares dedicados à agropecuária e, segundo a Embrapa, uma área potencial adicional de aproximadamente 28 milhões de hectares que poderiam ser incorporados sem desmatamento, a partir de pastagens degradadas ou subutilizadas.
De onde para onde
O estudo usa a metodologia dos Três Horizontes para ligar o presente ao futuro desejado:
Cultivo proibido; demanda interna pequena fora do uso medicinal; ausência de infraestrutura, de política pública e de investimento em P&D; predomínio de soja e milho no agronegócio; falta de dados padronizados sobre o setor. Enquanto isso, o cânhamo se desenvolve em Europa, América do Norte e China, e a demanda global sobe.
Produção regulamentada com base em princípios ESG; o país entre os maiores produtores e inovadores, com demanda interna e externa altas; exportação de produto de alto valor agregado, não só de matéria-prima; Embrapa como motor de inovação perene; cânhamo integrado à agricultura regenerativa e à economia circular; códigos de comércio padronizados; produção distribuída entre grandes, médios e pequenos; e leis de reparação que garantam entrada de grupos étnicos e vulneráveis no mercado.
O que fazer no meio do caminho
Entre os dois horizontes, o estudo lista mais de 40 recomendações. Agrupadas, elas se organizam assim:
Regulação e institucional
Formar de imediato um grupo de trabalho permanente, de preferência no Ministério da Agricultura ou no do Desenvolvimento Agrário, com participação da sociedade civil, Justiça, Relações Exteriores, Saúde, Anvisa, Apex, Ibama, Receita e Polícia Federal. Criar regulamentação abrangente para cultivo destinado a medicamentos, fibras e alimentos, partindo das permissões que já existem na Lei 11.343/2006. Harmonizar o limite de THC com o dos principais mercados. Montar força-tarefa interministerial com cronograma para ajustar decretos e portarias. Criar licenciamento simplificado e auditável, registro obrigatório e normas de rastreabilidade proporcionais ao porte do produtor.
Ciência e tecnologia
Investir em bancos de germoplasma e no desenvolvimento de cultivares adaptados a cada região, com registro no Registro Nacional de Cultivares. Financiar pesquisa nas universidades, criar cursos técnicos e de pós-graduação em manejo, genética aplicada e processamento, e fomentar uma rede de laboratórios credenciados para medir THC e parâmetros de qualidade.
Crédito, mercado e inclusão
Linhas de crédito nos bancos federais para equipamento de produção, processamento e armazenagem, com condições especiais para pequenos produtores. Incentivo fiscal para indústrias que comprem de agricultura familiar. Polos industriais regionais para encurtar logística. Parcerias público-privadas para infraestrutura. Programas de geração de renda em comunidades indígenas e quilombolas, alinhados a princípios de reparação histórica.
Demanda e imagem
Campanhas de conscientização e educação do consumidor. Uso do cânhamo em compras públicas, como uniformes escolares e militares, para alavancar o início da cadeia. Criação de uma identidade de marca nacional para o cânhamo brasileiro, com sustentabilidade e inovação como diferenciais. Engajamento da Apex em feiras no exterior e negociação de acordos bilaterais com mercados de alta demanda.
Ponte de curto prazo
Viabilizar, em caráter temporário, a importação comercial de matéria-prima e produtos acabados — para que a indústria nacional e a demanda interna comecem a se desenvolver antes de existir lavoura no país.
Cenários não são previsões nem juízo de valor sobre o que é certo. Servem para ampliar o repertório de quem decide. As recomendações acima são do Instituto Ficus; a leitura e o recorte, nossos.