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Cânhamo · Sustentabilidade

Sustentável depende de como se planta

O cânhamo tem vantagens agronômicas reais. Também tem uma necessidade alta de nitrogênio e uma janela aberta para o pesticida entrar. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo.

O cânhamo chega ao mercado com fama de cultura limpa, e boa parte dessa fama se sustenta. Mas os dois estudos que usamos nesta seção fazem a mesma ressalva, com palavras diferentes: plantar cânhamo não é, por si, um ganho ambiental. Depende de como se planta. Esta página traz os dois lados, porque o setor ainda está decidindo qual deles vai prevalecer.

O que joga a favor

Água

Para produzir a mesma quantidade de fibra, o cânhamo consome cerca de 75% menos água que o algodão. É uma planta resistente à seca e com baixa demanda de irrigação na maior parte das regiões produtoras.

Poucos insumos

O crescimento vigoroso, a capacidade de sombrear o solo e a resistência a doenças permitem cultivar sem pesticida — particularmente sem pesticida sintético — em muitos países. Essa característica faz do cânhamo uma cultura bem adequada à agricultura orgânica.

Rotação que aumenta a safra seguinte

Culturas plantadas em rotação com cânhamo sofrem menos pressão de planta daninha e rendem de 10% a 20% mais. O efeito foi observado em milho, soja, tabaco e trigo. Para o produtor, é receita adicional sem custo adicional de terra.

Solo e erosão

A raiz pivotante profunda areja o solo, ajuda a formar agregados e segura a erosão. Como as raízes se decompõem antes do plantio seguinte, devolvem aeração e matéria orgânica ao terreno.

Fitorremediação

Vários estudos mostram capacidade de extrair metais pesados, dioxinas, pesticidas e material radioativo de solos contaminados. Ainda falta pesquisa para saber com que eficiência cada cultivar faz isso — e a biomassa resultante pode precisar de descarte como resíduo perigoso.

Abelhas

Sendo polinizado pelo vento, o cânhamo produz muito pólen e não depende de insetos — mas atrai. Quando floresce em períodos de escassez, vira fonte valiosa de pólen para dezenas de espécies de abelhas, com efeito positivo sobre a polinização de outras culturas da região.

Aproveitamento integral

Dependendo do cultivo e da infraestrutura de processamento disponível, a produção pode chegar perto do desperdício zero: todas as partes da planta têm uso ou transformação possível.

O que pesa contra

Nitrogênio

Esta é a ressalva mais importante, e a menos divulgada. O cânhamo é nitrófilo: prospera com nitrogênio. As recomendações de adubação para fibra chegam a 112 kg/ha na Carolina do Norte — igual ou acima do recomendado para algodão e soja no mesmo estado, e perto do recomendado para milho. Algumas recomendações vão a 224 kg/ha. Na França, a referência é 100 kg/ha.

Fertilizante perdido vira contaminação de água subterrânea e superficial e emissão de óxido nitroso — gás cerca de 300 vezes mais potente que o CO₂ no aquecimento da atmosfera, com mais de cem anos de permanência. A eficiência global de uso do nitrogênio é de apenas 46%. Adubo orgânico, composto e leguminosas de cobertura fornecem nitrogênio equivalente com muito menos migração para fora da lavoura.

A porta aberta para o pesticida

Hoje, os pesticidas permitidos para cânhamo são majoritariamente biológicos. Nos Estados Unidos, a EPA aprovou cerca de 46 ingredientes ativos, dos quais apenas um é convencional — o herbicida pré-emergente etalfluralina, liberado em abril de 2023. A China, um dos maiores produtores, não registrou pesticida nenhum para a cultura.

Mas França e Holanda, duas líderes de produtividade, já permitem vários pesticidas convencionais na fibra, incluindo alguns classificados como altamente perigosos pela Organização Mundial da Saúde. À medida que a área plantada cresce, a pressão de pragas cresce junto — e o registro de defensivos mais agressivos tende a seguir, a menos que o setor decida o contrário agora.

Mecanização e emissões

Conforme a cultura industrializa e deixa de depender de trabalho manual, entra maquinário de colheita e processamento que consome energia, em geral fóssil. O ganho de escala pode reduzir a vantagem de emissões.

Carbono: cuidado com a conta

Há estimativas de captura de carbono equivalente à de uma floresta, e a produção francesa é citada com 15 toneladas de carbono por hectare ao ano. Mas as regras de análise de ciclo de vida não permitem contabilizar sequestro de carbono que não se mantenha por pelo menos cem anos — e a ciência do solo passou nos últimos dez anos por uma revisão profunda do próprio mecanismo de armazenamento de carbono, que hoje se entende como proteção física em agregados, não como formação de substâncias húmicas estáveis. Quem for vender crédito de carbono de cânhamo precisa saber disso antes de fazer a promessa.

Direitos de quem planta

Valem para o cânhamo os mesmos riscos de qualquer cadeia agrícola: trabalho infantil, trabalho forçado, salário, segurança e liberdade de associação — maiores onde a regulação é fraca ou mal fiscalizada. Há ainda a questão fundiária, incluindo o direito de povos indígenas à consulta livre, prévia e informada, e o cuidado para que a nova cultura não desloque produção de alimentos.

Como se comprova

Afirmação de sustentabilidade sem verificação independente é só afirmação. Os programas que a Textile Exchange aponta como aptos a sustentar esse tipo de alegação na fibra de cânhamo são a certificação orgânica, o Regenerative Organic Certified, o Preferred by Nature Sustainability Framework e o ISCC. Todos proíbem pesticidas classificados como extremamente ou altamente perigosos pela OMS e os banidos pelas convenções de Montreal, Roterdã e Estocolmo; todos, exceto o Preferred by Nature, também proíbem fertilizante sintético.

Na etapa industrial, GOTS e OCS são os padrões que dão cadeia de custódia do campo ao produto acabado — ambos consideram a maceração como primeira etapa de processamento. Entre as empresas certificadas que trabalham com cânhamo, o processamento se concentra em China, Índia, Portugal e Turquia.

O modelo francês

A França nunca proibiu oficialmente o cânhamo e hoje é a maior produtora de fibra do mundo, com 47% do volume global em 21% da área cultivada. A produção está organizada em cooperativas de pequenos e médios produtores, com unidades de beneficiamento a no máximo 150 km das fazendas, uso integral da planta, proibição de transgênicos e cultivo sem pesticida. É o exemplo que os dois relatórios usam quando falam em fazer certo desde o início.

Fontes desta página

  • Growing Hemp for the Future: A Global Fiber Guide — Textile Exchange, julho de 2023. Autoria de Sandra Marquardt, com dados de FAOSTAT, USDA e TURKSTAT. textileexchange.org
  • Cânhamo: a Commodity do Futuro — recomendações para a regulamentação do cânhamo no Brasil — Instituto Ficus, 2024. Pesquisa de Juliana Tranjan e Rodrigo Tafner, coordenação de Marcel Grecco, edição de Tarso Araújo. www.institutoficus.org

O texto desta página foi escrito pela equipe do I Love Hemp a partir desses estudos. Os números e as afirmações factuais são deles; o recorte e a redação são nossos. Veja a lista completa em fontes e créditos.